Guardar: uma lição de poesia

Para Antonio Cicero, que tudo sabia das palavras

 

Quando a palavra

queda só e impotente,

é preciso guardá-la.

Não na gaveta dos bilhetes rasgados,

nem no baú trancado da memória.

É preciso gritá-la.

*

Quando as coisas findam

e o amor se vai,

é preciso guardá-lo.

Não no porta-retratos escondido,

é preciso colocá-lo à vista,

fitá-lo, admirá-lo,

iluminá-lo,

ser por ele iluminado

estar acordado por ele,

porque em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre se perde a coisa à vista.

*

Quando o pássaro se vai,

é preciso guardar seu voo,

porque é só nele que as coisas existem.

Não nelas mesmas.

 

(Analice Martins – Campos, 25/08/2026)

 

A bailarina (II)

 

 

 

 

 

 

 

A bailarina que dança – absorta –

seu corpo volátil

no deserto

*

suspende seu encanto

no espanto

alheio.

*

Como sereia,

afoga

o marujo à deriva.

*

Entre o deserto e o mar,

há sempre 

uma promessa de felicidade.

(Campos, 02/05/2026 – Analice Martins)

 

 

Anotações para um poeminha que não vingou

AMOR AOS RÉS-DO-CHÃO: aquele que não conhece a grandiloquência épica, nem a placidez árcade, nem a idealização romântica, nem a nobreza simbolista; aquele que é apenas comezinho, ordinário e alumbrado, todo ávido e luxuriante; aquele que é como cheiro de café na sala: inebriante sempre, surpresa estúpida, telepático, constância dia após dia; aquele que se sobrepõe aos fatos, às circunstâncias; aquele que cresce como hera, ocupando todas as paredes, que tem visco e parece girassol: rodopia em volta dos dias, das horas, abraça os meses, saúda o sol e teme a noite.

(Analice Martins – Campos, 26/01/2026)

A bailarina (I)

Significado de Ampulheta - Dicionário de Símbolos

Na guarda da cama, 

uma ampulheta incrédula

escoa

o tempo.

*

Horas, dias, meses

atravessaram

um gargalo estreito

e acumularam,

na âmbula inferior,

uma felicidade imprevista.

*

Felicidade:

essa bailarina improvável

que dança

no deserto.

 

(Analice Martins – Campos, 15/08/2025)

 

Contra a ferrugem dos sentidos (VI)

No inverno rascante da planície,

outra vez agosto:

um giro em torno do sol.

*

Para esse tanto,

uma lista diminuta

de desejos rutilantes:

*

Nina Simone cantando Felling good,

teu corpo tépido e lépido

numa manhã azul.

*

La vie en close, de Leminski,

aberto sobre a cama:

” a quem me queima e, queimando, reina” -,

a epígrafe óbvia

do poema que não te escrevo.

 

(Analice Martins – Campos, 01/08/2025)

 

Paisagens

Imagem

 

 

 

 

 

 

Teu corpo em movimento

– colado ao meu –

serpenteia a geografia da cidade

entrevista da janela.

*

A sinuosidade dos morros

recorta o azul

– ofegante –

deste céu de verão.

*

Verão que desagua no mar

um gosto cítrico

como o sumo da laranja

no ventre das tuas manhãs.

 

(Analice Martins  – Rio,17/02/2025)