Quem me conhece sabe que cultuo o cinema na telona, que me disponho aos deslocamentos (desde que não para shoppings), que pago inteira se não me enquadrar em nenhuma meia-entrada, que prefiro ir só e que odeio pipoca (o cheiro e o barulho). E que só vou aos domingos se não houver outro dia que me seja possível. Cinema para mim não é entretenimento, muito menos a maior diversão. Se você leu esse introito deselegante e não fechou a tela, vá até o final desses breves comentários.
Assisti a seis filmes desde que cheguei ao Rio de férias: “Crônica de uma relação passageira” (Emmanuel Mouret), “Queer” (Luca Guadagnino), “Babygirl” (Halina Rejin), “Histórias que é melhor não contar” (Cesc Gay), “Baby” (Marcelo Caetano) e “Meu bolo favorito” (Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha). Produções brasileira, americana, espanhola, francesa, iraniana. Diretores e diretoras também de nacionalidades distintas. Nenhuma aleatoriedade. Só vou ao que me interessa por algum aspecto: produção, fotografia, temática, linguagem, interpretações. De preferência, tudo junto e misturado.
Quero sempre sair da sala escura com algum clarão, alguma coisa que tenha me içado e me inquiete, que me faça ficar falando comigo mesma, que renda alguns chopes e que permaneça em minha memória por muitos, muitos anos. Ou seja, sou uma chata assumida. Mais motivador ainda é quando consigo fazer relações entre filmes assistidos em épocas distintas, em contextos diversos e recordados com finalidades diferentes.
Na relação dos filmes desse janeiro de 2025, me peguei costurando essas dimensões tão importantes e corriqueiras da vida: solidão, sexo e amor. Em todos os filmes que citei, há personagens solitários, ainda que casados, acompanhados etc. A solidão é uma condição existencial, não é necessariamente a ausência de pessoas ao redor, embora essa seja a situação mais evidente: na terceira idade (“Meu bolo favorito”); no abandono familiar (“Baby”). Ou mesmo num certo exílio (“Queer”).
A solidão é amarga (fato, né?!), mas, quando é atravessada pela pulsão do desejo, da paixão – esse ímpeto violento de vida -, ela se transfigura. O desejo é sempre uma falta. Ou parte de uma falta, uma lacuna, uma fenda, uma fresta. Não me refiro apenas ao desejo sexual. O desejo é uma inquietude produtiva, mobilizadora, remove montanhas. Acreditem! Pena que seja tão demonizado pelas culturas em geral. Tão mal interpretado. O sexo que consuma o desejo cúmplice é solar. Deveria ser! Dionisíaco, festivo!
O sexo até pode não ser a coisa em si como em “Meu bolo favorito”, mas ele está lá como linguagem, como pulsão de vida, como diz o personagem de “Crônica de uma relação passageira”: “Mesmo que não façamos nada, só ver você já é algo sexual”. O sexo também é uma linguagem que tem que se corporificar em uma língua comum, num léxico partilhado, ou será sempre frustrado como em “Babygirl”. Sexo não é para ser um monólogo.
“Baby” é o filme em que o sexo está presente como moeda de troca e sobrevivência, mas também como abrigo e acolhida (“Some não, baby!”, diz um dos personagens), assim como, em “Queer”, o sexo também acolhe a solidão do exílio e das margens territoriais e corporais. E o amor? O amor entra em quase todos esses filmes como um plus, uma coisa sorrateira, imprevista e que não foi dada a priori. Nunca é, né? Por isso, talvez, seja mesmo como diz Drummond: “… é privilégio dos maduros!”.
Para finalizar esse esboço de análise, registro, das narrativas de “Histórias que é melhor não contar”, aquela cujo título resume o de todas essas bobagens que escrevo aqui: “Você me fez muito feliz nos últimos dois meses”. Simples assim!
Cinema não é necessariamente a maior diversão, mas é sempre uma ótima opção!
Analice Martins (Rio, 17/01/2025)